Já não nos tocamos mais

… “Penso que desculpas cabem quando fazemos algo de errado ou de ruim para outras pessoas, mas encostar sem querer no outro não é motivo de desculpa, ou é?”…

O abraço não custa nada e é de grande valia para a saúde

O abraço não custa nada e é de grande valia para a saúde

Até ter passado por aquela experiência, jamais tinha me tocado de que pé chegamos com esta humanidade dita desenvolvida, aberta e moderna. Até passar três meses estudando línguas nos Estados Unidos, nunca tinha me apercebido que nossa humanidade está em risco não somente por causa da fome e da destruição do planeta. Depois daquela chocante conclusão, constatei que o que havia vivenciado não era somente porque estava num país frio, calculista, mas valia para todos os países, sem distinção.

Era fevereiro de 2000, estado da Virgínia. Morava nos alojamentos da Old Dominium University, em Norfolk. Depois da aula, fui a um supermercado para umas compras como fazia semanalmente. Qual não foi minha surpresa quando um dos nativos estadunidense raspou seu cotovelo nas minhas costas; eu nem ia me dar conta se não fosse os inúmeros e seguidos pedidos de desculpa. “I’m sorry”, dizia aquele jovem senhor de gravatas e paletó, cabelos compridos que se avolumavam atrás da orelha, bigode médio de cor avermelhada. “I’m so sorry”, repetia.

Confesso que no início eu não sabia porque tanta desculpa. Olhei se ele estava sujo para me sujar também. Parecia tudo normal. E estava, pra mim. Pra ele não: ele havia me encostado. Depois soube que pra muitos nativos daquele país, encostar no outro é quase que agredi-lo, é entrar na sua privacidade. Tentei em vão, com o meu parco inglês, dizer que estava tudo bem, que não tinha sido nada. Só percebi que as coisas melhoraram quando não o vi mais na minha frente.

Esta semana, na cantina da Unesc, não pude deixar de fazer uma ligação que aquela experiência de 2000, quando uma acadêmica encostou levemente no meu braço enquanto apontava para o tipo de lanche que desejava. Intumescida, ela não pensou duas vezes:

- “Desculpa”, disse-me sem olhar nos meus olhos.

- “Desculpa por que, podes me explicar?”, questionei-a.
- “Ah, porque encostei no senhor”, explicou a jovem morena, alta que estava acompanhada de seu namorado.

Naquele momento lembre-me da experiência no mercado há nove anos e constatei tristemente que a coisa estava pior do que eu pensava. “Nossa, parece que aquela frieza está em toda a parte, em todo o lugar”, pensava enquanto a observada aguardando o meu “de nada, não foi nada”. Surpreendendo-a, disse-lhe:

- “Você encostou em mim? Nem percebi”.

- “Sim, eu encostei no senhor. Desculpa tá?”.

Inconformado com o pedido de desculpas, já que pra mim ela não havia feito nada que merecesse um pedido de desculpas, disse-lhe que não era necessário pedir desculpas, pois encostar no outro não é pecado, não tira pedaços e que eu não imaginava seres humanos viverem sem se encostar um no outro.

Diante das minhas colocações, ela simplesmente fechou a cara deixando entender que não estava entendendo nada do que eu tentava lhe dizer. Virou as costas pra mim como se dissesse, “enconstei em ti, pedi desculpas e aceitas se quiser”. Pegou o seu lanche e foi sentar à mesa com seu namorado.

Eu também fiz menção de sentar para lanchar, mas não me contive. Fui ao encontro dela e tentei explicar que as pessoas estão tão afastadas umas das outras que quando uma roça levemente um dedo ou um cotovelo em outra, é motivo de desculpas.

- “O que está de errado encostar numa pessoa, ainda mais involuntariamente?”, perguntei-lhe enquanto tanto ela quanto seu namorado me olhavam com os olhos arregalados. Não existe nada de errado, pelo contrário.

- “Por isso, não necessitas pedir desculpas, pelo menos pra mim, ta?”, finalizei com um sorriso no olhar e uma alegria na boca. Da parte deles, o inverso, infelizmente. Só o licencio. Penso que desculpas cabem quando fazemos algo de errado ou de ruim para outras pessoas, mas encostar sem querer no outro não é motivo de desculpa, ou é?

Recolhi-me à minha mesa tendo a sensação de que eles não haviam entendido nada do que queria passar. Mais: mais do que não me compreender, me achavam totalmente louco.

Puxa, que pena, pensava. Onde vai parar nossa humanidade se já quase não nos tocamos mais?

Estas são algumas das minhas idéias que penso e procuro agir neste momento, amanhã posso mudar. Não quero que você concorde ou discorde delas, só desejo que você me entenda.

3 Comentários a “Já não nos tocamos mais”


  • Lila Alvarenga

    Prezado Manoel,

    estou lendo o livro de vcs sobre o caminho de Compostela.

    Minha filha me presenteou no dia das mães.

    Estou sonhando em fazer esse caminho….Sou caminhante, já fiz o Caminho da Luz, no sul de MG.

    Temos um amigo, Manoel, aqui em Brasília que já fez Compostela umas 13 vezes…

    Parabéns pelo seu trabalho.

    Lila

  • Jeniffer Rodrigues

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk na hora que li eu disse: “bah não acredito que tem disso…Não pode ser….. mensagem au-to-ma-ti-ca” bah… é muito chato isso!!!! eu louca pra falar com vc!kkkkk dai comecei a rir! Manoel, é um honra poder falar com vc.

    Nossa!!! ja tentei muitas outras vezes enviar-te e-mail mas não sei o que acontecia. inclusive eu postava nas fotos comentários…. bem chata, babando nas fotos!kk

    Bom quando vi suas fotos principalmente a com seu pai me emocionei muito pois adoro essa simplicidade sem interpretações de papeis ser vc mesmo, inteiro. Faço minhas caminhadas e a ultima foi até Laguna e voltei pela ferrovia uns 50km, coloquei a barraca nas costas e mantimentos e fui! Ah e um amigo, outro solteirão, que trabalha no mesmo órgão que eu também sente-se bem caminhando então fomos juntos e na volta dávamos gargalhadas, pois um comerciante vendo nosso estado fisico comentou com sua esposa: “olha muié mais dois andarilho chegando na cidade , da onde que eles vem né” kkkkkkkkkkkkkkkkk; Então penso como ainda existe o preconceito! por que pessoas que tem seu emprego, seus estudos, vida estavel não podem praticar tal ato? Ah pratico meditação na Zelia aqui em Tubarão e ela te conheceu através da Santana, bom e ai a conversa desenrrolou a são muitas as informações….. kkkkkkkk vens a tubarão de vez em quando? quando vieres e tiveres um tempinho que seja, da uma passadinha aqui na cadeia kkkkkkk brincadeirinha é na delegacia da mulher em frente ao mercado Giassi(agora não e brincadeira kkk) para essa sua seguidora conhecer-te pessoalmente! Sou obrigada a conhecer meu mestre.

    Ah eu tinha algumas fotos aqui na DP e estou enviando-te são fotos da minha ultima caminhada (semana retrasada)no morro do Cambirela mais trilha do que caminhada! eu não sabia que seria assim tão puxado! te juro!kkk eu sou a de blusa azul.

    Um Fooooooooorte abraço

    fica com Deus

    Jenifer Rodrigues

  • Adriana Padilha

    Olá, cá estou novamente…

    Não canso de ler seus artigos, são de grande valia na minha vida.
    Sempre que posso entro no site para buscar novos textos que são como um bálsamo para meu espírito.
    Amo aprender, conhecer, caminhar (pena q não consigo, rs), abraçar, beijar e dizer “eu te amo”.
    Sim, se a humanidade não se toca mais, imagina dizer “Eu te amo meu pai, minha filha, meu irmão, meu amigo.”
    O mundo está perdendo o alimento principal, a força que o movimenta, que é o amor.O mundo está carente de pessoas que desejam o bem do próximo.
    Pessoas deste planeta, vamos nos tocar, vamos amar aqueles que nos rodeiam (e os que não rodeiam tb) e fazer deste mundo um lugar mais feliz.
    Um grande beijo no coração querido amigo!!!

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