Fragmentação (Artigo)

…”Vá na divisa de um país com outro, coloque os pés num lado da fronteira e o outro no outro lado e observe o que você sente”…

Um banco de e para todosO ex-reitor da Unipaz, Pierre Weil, que recentemente passou para outra existência, deixou uma contribuição inestimável para a humanidade por intermédio das suas mais de 50 obras escritas e traduzidas para todos os continentes. Mas uma delas há anos me sensibilizou e me fez tomar consciência de quanto nós seres humanos somos indivisíveis: trata-se do livro “A arte de viver em paz”. Tanto é assim que hoje sou, inclusive, facilitador do seminário, que leva o mesmo nome do livro, e desde que me habilitei, venho mediando este tema com estudantes, empresários, trabalhadores, enfim, com buscadores em geral.

Durante o seminário de 12 horas que em breve facilitarei no Oikos – Lar de convivência (www.oikos.org.br), trabalhamos a inteireza do ser, o resgate da essência humana. E para isso, buscamos observar o que se está fazendo para o todo e até buscar alternativas que vão ao encontro da vida. Desta forma, para entender melhor este ser humano, dividimo-lo em três: eu comigo, onde tem-se introdução de relaxamento, meditação; eu com o outro, onde buscamos observar nossas relações sociais, com destaque à cooperação; e eu com a natureza, onde percebemos que a natureza não está fora de nós.

É justamente aqui, neste ponto, que vou me ater doravante neste artigo. De acordo com o francês Pierre Weil, o maior paradigma atual da humanidade é o da fragmentação. Isso quer dizer que fragmentamos tudo, dividimos qualquer coisa, separamos o inseparável. Para ficarmos numa visão só do nosso planeta, dividimos o planeta em continentes, os continentes em países, os países em Estados, os estados em cidades, as cidades em bairros, os bairros em ruas, as ruas em casas, as casas em quartos, os quartos em indivíduos. Divididos, perdemos a noção de que somos todos seres vivos, humanos, no mesmo planeta, na mesma condição e o problema humanitário de um país nada tem a ver comigo, pois cultuo outra bandeira. Que dirá de uma região para outra num mesmo país e até no mesmo Estado? Basta fazermos uma experiência, vivida pelo próprio Pierre. Vá na divisa de um país com outro, coloque os pés num lado da fronteira e o outro no outro lado e observe o que você sente. Absolutamente nada, pois as fronteiras nascem nas mentes das pessoas.

Se pegarmos outro exemplo, a medicina, observaremos que as especialidades são uma características destes terapeutas que cuidam do corpo. Hoje em dia, se tivermos uma doença, mas não termos bem claro o que sentimos, teremos dificuldades de saber a quem procurar. Numa destas preparações para caminhada mais longa, contraí tendinite. Liguei para a secretária do médico ortopedista marcando consulta. No final do acerto, ela me pergunta: o problema é onde? – É no pé, respondi. – Ah, no pé é outro médico. Este atende só joelho. Ainda bem que a secretária ainda não perguntou se era o pé direito e esquerdo.

Todos conhecemos milhares de exemplos de pessoas que foram se tratar de um doença e morreram de outras, justamente devido aos efeitos colaterais dos remédios. Uma sobrinha estava com sério problema de saúde e teve que tomar um forte antibiótico que fez apodrecer e cair todos os dentes. O avô dos meus filhos entrou no hospital para tratar o coração e morreu com problemas do pulmão. Por que tudo isso? Justamente porque fragmentamos demais o ser humano, o planeta e não temos mais a sabedoria de observar a vida como um todo. Tratamos a parte sem considerar o todo. A parte, sabemos, está no todo, mas o todo, não está na parte. Que tipo de corpo humano poderíamos criar se colocássemos um representante de cada especialista numa sala?

Se fossemos agora pegar a postura ecológica de boa parte das pessoas, também poderíamos concluir que o grande paradigma continua sendo a fragmentação. Basta observar o que estamos fazendo com nossos rios, mares, lagos e florestas. Afinal de contas, como os seres vivos vão continuar vivos sem água? Sem árvores? Olhemos ao nosso redor e nos demos conta da quantidade de lixo jogado a céu aberto que vão continuar aí, por milhares de anos entupindo as bocas de lobo, poluindo nossas lavouras, inviabilizando a vida neste planeta.
A fragmentação é tão grande que as pessoas, no geral, não percebem que tudo que fizerem a terra estão fazendo a si mesmos. Sai da gente e volta pra gente. Não consigo entender como tem pessoas que tiram seus lixos de frente da casa e jogam num terreno baldio ermo. Como despejam pneus, fogões e sofás velhos em qualquer lugar sem nenhuma conseqüência. Talvez por isso que já fazem com outros animais como cachorro e gato, e corremos o risco de a moda pegar com os idosos e outros considerados “incapacitados”.

Ecologia é a união de duas palavras: eco, que vem de oikos, que quer dizer lar, acrescida da palavra logia, que significa estudo. Ao contrário do que muitos pensam, ecologia não é o estudo do verde e sim estudo do lar. O universo como lar da vida, o planeta como lar dos seres vivos, o corpo como lar do nosso espírito. Quem de nós, então, cospe ao lado da mesa de refeição em nossa casa? Quem varre a nossa casa e coloca o lixo em baixo do tapete? Se não fazemos isso, por que cuspimos na terra, jogamos o lixo em qualquer lugar, despejamos nossa fossa nos arroios, na boca do lobo, nos mares? Fazemos isso justamente porque nossa mente está com uma postura de fragmentação e não reconhece que o outro sou eu. Quando tivermos este avanço como humanidade, e temos todas as condições para isso, pois nada maios é do que consciência (conhecimento e atitude), haverá uma nova ordem planetária, um novo ser habitará este planeta e a vida, enfim, inteira terá uma nova chance de provar que indivíduo não é de “um’, mas de “idivisível”

Estas são algumas das minhas idéias que penso e procuro agir neste momento, amanhã posso mudar. Não quero que você concorde ou discorde, só desejo que você me entenda.

2 ideias sobre “Fragmentação (Artigo)

  1. Manoel Mendes ou Beto Colombo

    Vi o seu livro hoje nas Livrarias Curitiba, e fique muito feliz pois sou um Apaixonado pelo Caminho, pois fizemos quase juntos, começei dia 25 de junho e termenei 21 de julho/07, depois fiquei uma semana no Albergue do Monte Gozo, acho que até nos vimos na cidade de Santiago.
    Me mande o teu e-mail que vou mandar um resumo do meu caminho.

    abraços

    Virgilio

  2. Gostaria de ter certza se você é o mesmo que escreveu o livro juntamente com o Beto Colombo, Santiago de Compostela. A professora Schyrlei falou do seu trabalho no presídio Santa Augusta e fquei muito motivada, pois gostaria de fazer um trabalho nesta área. Parabéns! Sou acadêmica da quinta fase de psi. Um abraço!!!!!

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