Transtornos momentâneos, melhorias permanentes (Artigo).

Jamais vamos nos banhar na mesma água. Tudo é um contínuo ir e vir, iniciar e encerrar, partir e chegar… viver e renascer

Eu sou nuvem passageira“Transtornos momentâneos, melhorias permanentes.” Este é o teor da placa de sinalização que encontrei em um dos trechos da duplicação da BR-101 que está há mais de dois anos em franco desenvolvimento no Estado de Santa Catarina. Provavelmente o leitor que, como eu, faz este trajeto entre o sul do estado até Florianópolis já deve ter se deparado com este letreiro: Transtornos momentâneos, melhorias permanentes.

São cinco palavras cujo objetivo, concluo, é inteligentemente pedir desculpas pelos “problemas” com a duplicação, que são muitos. Inclusive a questão segurança fica bastante prejudicada, provocando vários acidentes fatais neste trajeto. Subliminarmente, deduzo, os administradores daquele consórcio querem dizer que depois da tempestade vem a bonança. Que depois dos transtornos momentâneos, vêm as melhorias que vão ser permanentes.
É sabido que nada é pra sempre. Os cristãos, argumentando a bíblia,dizem que há o tempo das vacas gordas e o das vacas magras. Já os budistas trabalham com o conceito da impermanência. Karl Marx dizia que tudo que é sólido se desmancha no ar. E a música canta: “Não adianta escrever seu nome numa pedra, pois esta pedra em pó vai se transformar…”
Muito bem, nada é, a não ser Aquele que É. Tudo está e, por isso, tudo passa.

Parece que não é o tempo que passa, somos nós que passamos. “Eu sou nuvem passageira, que com o vento se vai”. Talvez por isso que pintamos o cabelo, fazemos cirurgias plásticas, limpamos os limos das calçadas e telhas. Tudo porque não aceitamos a idéia de que há o ciclo natural de nascer, se desenvolver, crescer, ser e passar. Existem “famosos” que até quando saem nas colunas e revistas ditas sociais o fazem, algumas vezes, com fotos antigas (sic!).
O ser humano é o único animal que tem consciência que vai passar (alguns dizem morrer), e é o único também que se bate contra isso, buscando a imortalidade nas pirâmides, no congelamento do corpo, enfim, buscando a sua imortalidade física. Enquanto faz isso desesperadamente, deixa de curtir o instante, o momento presente. Talvez por isso seja o animal que está comprometendo a permanência de vida no planeta; onde o homem se instala há poluição, degradação, morte. De repente, ao invés de sonharmos nossas vidas eternas, devêssemos viver intensamente nossas vidas terrenas baseadas no poder do agora. Talvez assim, passaríamos com mais leveza, mais desapego.

Nada é, tudo está. Por isso, penso por ora, pra que tanta prepotência, arrogância ou ganância? Olhemos a potência do império romano que ruiu. Observemos a empáfia estadunidense que também está se esvaindo como nação hegemônica. Não é difícil lembrar um time de futebol com grande torcida que acabou na segunda ou terceira divisões; até mesmo um grande empresário que agora vive de aluguel e sequer tem um automóvel. Tudo passa, só o que não passa é o que É.

Jamais vamos nos banhar na mesma água. Tudo é um contínuo ir e vir, iniciar e encerrar, partir e chegar… viver e renascer. Existem leis naturais para as quais não é inteligente ir contra, talvez nem entender, só sentir, relaxar e curtir, até porque não há outro jeito, há?
Transtornos momentâneos, melhorias permanentes. A princípio uma frase impactante e até inteligente se formos falar de consciência do “normal”, deste nível denso de realidade. Mas se formos um pouco mais além, sutilmente mais profundamente na questão, vamos concluir que se trata de um sofisma. Afinal de contas, nada é permanente; pelo contrário, tudo é impermanente. Até mesmo os transtornos de agora podem passar, é claro que vão passar. Mas eu não tenho a ingenuidade que depois de pronta a BR 101 será uma permanente rodovia do jeito que foi inaugurada. É só observar melhor que em alguns trechos duplicados já existem alguns buracos. Cadê a melhoria permanente?

Estas são idéias que penso e procuro agir neste momento.

5 ideias sobre “Transtornos momentâneos, melhorias permanentes (Artigo).

  1. Nossa, muito boa tua reflexão sobre a impermanência das coisas. Concordo plenamente com essa visão. Isso vai de encontro com a segurança que as pessoas querem alcançar na vida. Se as coisas são impermanentes, não há como haver segurança.

    Forte abraço,

  2. …concordamos que nada nunca na terra será permanente
    …Mas consideramos que para haver alguma qualificação no nosso meio temos que agir (..deixar ao acaso, tudo tende a piorar já que nada é permanente mesmo e caminhamos para o apagar das luzes)
    ..Ver, sintir o sol é uma fonte de renovação ETERNA e a eternidade sim, essa é permanente.
    ….boas caminhadas,

  3. A unica “coisa” pemanente é a mudança. Somos mutáveis, a cada segundo que passa já nao somos os mesmos, aprendemos, crescemos, envelhecemos. Ter ciencia que logo depois de nascemos, começamos a morrer e este espaço entre um evento e outro devemos aprimorar nossos conhecimentos, e buscar a sabedoria e a perfeição, outros ingredientes ficarão depois de nossa partida, então porque busca-los ?
    Richard Bach já escrevia: “O Paraiso não é um lugar, paraiso não existe, o paraiso é a busca da perfeição”. O caminho para este paraiso é através de nossas mudanças, de nossas atitudes. Mudar em busca do paraiso, mudar em busca da melhoria continua…

  4. Muito temos a aprender, para alcançar a sabedoria do “viver o presente”. Aceitar e vivenciar com tranquilidade a permanente mutação, é um começo!

  5. O ser humano sempre se debateu com essa insana luta de congelar o tempo e fazer o divórcio com o relógio. Filosofias à parte, penso que o grande sentimento que subjaz a essa necessidade de fazer com que as coisas (boas) durem uma eternidade seja fruto de nossos medos e inseguranças frente a um futuro sempre próximo, desconhecido e inevitável! Precisamos de “certezas” para nos sentirmos amparados emocionalmente. Desconhecemos por completo o sentido da vida e de nossa existência frente a um universo de uma vastidão absolutamente incompreensível para nós. Não sabemos de onde viemos e muito menos para onde vamos. Penso que a grande beleza está em aproveitar o momento que passa e viver o “processo”, compreendendo que a vida que flui em nós é mesmo um comodato. Desfrutar isso da melhor forma e com responsabilidade talvez seja nossa maior e mais bela tarefa.

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