O exemplo que vem do presídio

O estágio voluntário que fiz no presídio Santa Augusta de Criciúma durante o segundo semestre de 2008 poderia ser mais uma destas atividades como muitas que passam em nossas vidas. Mas não foi. Muito pelo contrário: foi um tempo de intensidade nas relações com toda comunidade ali envolvida, indo desde os agentes prisionais, a administração e, é claro, os reeducandos. Um período de muito aprendizado e muita troca. Mas até hoje não me sai da cabeça o exemplo que veio daqueles homens e mulheres por ocasião das enchentes em Santa Catarina.

O estágio iniciado em agosto e que teve a participação direta do meu colega de psicologia, Édserson Couto, e da Unesc, a entidade onde abriga tudo e todos nesta idéia. Teve também o irrestrito apoio do juiz Dr. Manoel Donisete e do administrador do presídio, senhor Patrício Patrício. Foram 11 encontros, todos realizados no Oikos onde os 15 participantes foram liberados para irem caminhando e sem escolta.

Durante este tempo, pelo menos uma vez por semana, Éderson e eu íamos ao presídio para nos encontrarmos com os reeducandos e íamos a pé até o Oikos. Aqui, trabalhamos o ser integral ( mente, corpo e espírito) sempre tendo como foco o objetivo principal do projeto, que foi buscar uma re-significação da vida de cada um até o momento. A partir daí, planejar e projetar a vida para o futuro, haja vista que os participantes estavam prestes a ganhar a liberdade definitiva; alguns até deixaram o presídio mesmo antes do projeto acabar. E, para surpresa de muitos, terminamos os 11 encontros sem nenhuma evasão. Pelo contrário, o grupo ficou mais unido, mais próximo e até fala em dar prosseguimento agora que já estão em liberdade. Em 2009, ano novo, vida nova!

Mas o grande exemplo que vem dos reeducandos do presídio não é o de civilidade e responsabilidade no projeto em questão. Isso eles tiraram de letra. O exemplo surgiu a partir da comoção geral diante dos números de mortos, desalojados e desabrigados da enchente que destruiu grande parte dos municípios do vale do Itajaí no final do ano passado. Muitos perderam a família, a casa e até o terreno. Impossível ficar tranquilo diante daquilo tudo. E os reeducandos do presídio Santa Augusta não ficaram; eles buscaram uma ação.

Lembro-me das pessoas que estavam “fora” do presídio, mas que se aproveitaram da situação para fazer saques em Supermercados, levando principalmente bebidas e cigarros. Não posso esquecer dos livre saqueadores de farmácia levando medicamentos controlados, equipamentos e cofres. E o que dizer daqueles que pediam R$ 5 por um litro de água mineral? Isso sem falar daqueles que chegaram a pedir 150 reais por um botijão de gás.

Quando soube da intenção dos reeducandos do presídio Santa Augusta, não pude deixar de pensar nos que não sentiram preocupação por ninguém, ou que simplesmente fizeram de conta que nada acontecia, por estarem em áreas secas. Acredite se quiser, mas os quase 500 reeducandos queriam ficar um dia sem comer e enviar todo o alimento economizado para as vítimas das cheias do final de 2008 em Santa Catarina.

Arrepiante. Emocionante.

Enquanto alguns aqui “fora” usam e abusam da situação delicada de uns, todos lá “dentro” se unem numa corrente do bem demonstrado que são seres humanos. E, pelo menos pra mim, um exemplo que vem de onde poucos aguardavam demonstrando que a esperança é o que conforta o coração.

* Manoel Mendes considera-se um buscador, um guerreiro do coração; é professor da Unesc e da Esucri e acadêmico do curso de psicologia da Unesc

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5 respostas a O exemplo que vem do presídio

  1. Analice Floriani disse:

    Parabéns pelo artigo: ‘O exemplo que vem do presídio’.

    ”(…) um exemplo que vem de onde poucos aguardavam demonstrando que a esperança é o que conforta o coração.”

    Beijo e abraços,

    Analice Floriani!

  2. ederson couto machado disse:

    isso….é o que motiva a querer ajudar também, sempre que podemos…exemplo como esses nos lembram que é possível manter a fé na vida…fé evolução da humanidade…

  3. danila disse:

    São seres humanos. Nao vejo espanto nenhum em quererem ajudar os desabrigados. Mas na hora do “trabalho”, não hesitam em atirar!!

  4. josie disse:

    hi my mane is josie by.

  5. limara guimaraes vieira disse:

    é muito legal pois eu já participei

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