Uma mochila de desapego (Coluna “DC”)

Vou contar uma história. Mas não vou contá-la assim, sem mais nem menos. Preciso antes dar umas voltas. E começo com uma exclamação: “Santo Deus, como é difícil ouvir de alguém uma frase que nos desligue da tomada das inconsciências e nos faça buscar o plugue da vida”.

Tenho andado por aí… sonambúlico, ou adormecido de um adormecimento produzido pela mesmice das rotinas. Faço cálculos sobre o nada, construo projetos já de antemão falidos, volto-me freqüentemente para os irremediáveis “ontens” da vida, gemo de modo inútil, e parto, correndo, para me abrigar no futuro.

Rematada estupidez, o futuro não existe. Mas vivo buscando abrigo nesse futuro imaginado, tão inconsistente quanto uma vela acesa ao vento. Enfim, pareço uma biruta da aeronáutica. Dito isso, vou contar da tal história que prometi na primeira linha. Acho que faço entrevistas no rádio desde que nasci. E posso assegurar que é muito raro ouvir de alguém uma frase que saia dos trilhos do convencional. Uma frase que faça-nos dizer, - humm, essa foi boa! Pois dia destes ouvi uma dessas frases. Foi no programa - Notícia na Tarde - que apresento na Rádio CBN/Diário, em Florianópolis. Entrou-me no estúdio um jornalista a quem eu já havia entrevistado antes e pelas mesmas razões: suas viagens.

O tal jornalista é o Manoel Mendes, um pacifista da vida. Ele faz viagens especiais, como ir a Machu Picchu, fotografar tudo, passar pela Bolívia, andar pelo Peru, assumir-se de mendigo numa caminhada de Criciúma a Florianópolis para ver como é que é… O Manoel fez um livro que é uma beleza: “O Buscador”.

Ele próprio é um buscador de vida pelas estradas do mundo. Santiago de Compostela ele conhece, por exemplo, como a palma da mão, sempre com um mínimo de bagagem. Perguntei a ele se ele era rico ou de família rica. Disse-me que não. Perguntei então como é que ele viajava tanto, isso exige muito dinheiro. E foi aí que ouvi a tal frase que mexeu com o meu estômago. Ele disse que não precisa de muito, precisa apenas de uma mochila cheia de desapegos.

Ô, Maneca, esse é boa, uma mochila cheia de desapegos. É tudo de que preciso, desapego. Vivo correndo atrás dos ventos do ter, ainda que não muito, e apegado a tolices que me escravizam e tiram o melhor gosto e tempos da vida. Fiquei pensando nessa de “encher uma mochila de desapegos” e sair por aí… Ainda não consegui, leitora, e vem daí a inveja que tenho do Maneca. Para viver bem e andar pela vida não se precisa mesmo de muito, só de uma mochila cheia de desapegos.

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Desapego
O Dalai-Lama vive falando de desapego, os budistas falam de desapego, as pessoas de inteligência mais elevada são desapegadas, só os estultos prendem-se ao que não tem valor de felicidade. Precisamos de muito pouco para viver bem, foi o que me disse o jornalista Manoel Mendes, que anda pelo mundo levando, como assegura, apenas uma mochila cheia de desapegos.

(Jornal: “Diário Catarinense” - Coluna: Luiz Carlos Prates - Data: 22/10/2007 - Página 03)

1 Comentários a “Uma mochila de desapego (Coluna “DC”)”


  • Danilo Oliveira

    Só queria parabenizar todos os envolvidos na criação deste site, pois é incrivel. No momento atual, onde a vida do ser humano é só voltada para beneficio próprio,vocês nos mostram que devemos respeitar os outros; mostram este clima de paz e companheirismo. Parabéns mesmo! Sucesso e tenham certeza, conquistaram mais um companheiro se não for muita pretensão da minha parte.

    Danilo

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