Explicar mentalmente porque caminho eu não consigo. Talvez um dia consiga, talvez não, mas isso não me intriga. E nem é prioridade.
Talvez eu caminhe para encontrar mais razões sinceras de viver. Talvez eu busque um sentido diferente àquele que o sistema impõe desde a tenra idade. Nascer, crescer, trabalhar, acumular, ter e morrer. Wiliam Wallace no filme “Coração Valente”, diz textualmente: “Os homens morrem, mas há homem que não vive”. Eu sei que todos vamos passar, por isso eu quero viver. Tenho ânsia de vida, de pulsar pelo bem, mas não só bem pra mim, para meus filhos, parentes e amigos. Meu sonho é o da plenitude pra todos. Ninguém é feliz sozinho.
O fato é que a rotina me angustia. É como se todo o meu ser me enviasse mensagens pelas minhas células avisando que algo precisa ser feito, que aquele cotidiano vai me levar a loucura, transferindo pra mim a opção de decidir pela doença da alma ou pela saúde mental, física e espiritual. Assistir o tempo passar na frente de uma TV que me vê ficar velho me deprime. Ou repetir gestos mecânicos numa indústria, ou esconder meu potencial atrás de uma máquina registradora…Viver não só é isso; não pode ser.
Talvez a questão correta não seja por que eu caminho. Talvez a inversão possa ser mais clara: Por que eu não fico confortavelmente em casa? É isso: por que eu não me sossego numa poltrona confortável a frente da TV me emocionando sem tirar a bunda da cadeira? Por que não me contento com a minha caminha quentinha e meu travesseiro perfumado? Por que eu não me satisfaço com as viagens químicas acessíveis em qualquer esquina? Afinal de contas, quase todos são assim, conformados com o script pronto das nossas vidas que pensamos ser escritos e protagonizados por nós mesmos.
Voltando ao motivo deste artigo, sinto que nada é exato. Talvez eu caminhe para viver o presente a cada passo, a cada esquina, a cada morro, a cada amanhecer, a cada rio, a cada encontro com as pessoas. Caminhar nestas circunstâncias é adrenalina pura e natural. Caminhando, eu deixo de pensar. É como o mundo parasse para eu passar, para eu viver. Trocando as passadas eu me sinto como um átomo, como um ser, como um planeta, como o universo. Sinto-me uno no verso e reverso da vida.
Das minhas experiências como caminhante, jamais vi uma pessoa chegar triste de sua jornada, seja ela de apenas alguns minutos, horas, dias ou meses. A maioria chega cansada, alguns exaustos fisicamente, mas ninguém emocionalmente abalado, deprimido, estressado. Porque a natureza é perfeita. Caminhando produzimos seratonina, o hormônio da alegria, da felicidade; o que demonstra que se estivermos alinhados com as forças da natureza, seremos beneficiados naturalmente por ela. Nada aqui fora vai substituir o que já temos dentro de cada um de nós.
Quem sabe eu caminho para dar “ouvido” ao clamor que corre em minhas veias dos nossos ancestrais quando ainda eram nômades e nada sedentários. Onde não existia terreno, casa, ruas, semáforos, leis, normas…. No fundo a gente sabe que está adoecendo justamente porque passamos do limite do conforto e entramos na delicada linha da preguiça.
É, “crescer dói”, no dizer da professora Lúcia Torres. Mas vale a pena. Justamente porque cabe a cada um de nós trilharmos o caminho que individualmente viemos percorrer neste mundo, cada um com seu sabor pessoal. Embora a maioria dos luminosos desta sociedade de néon nos prometa a alegria, a paz, a felicidade sem muito esforço. Propaganda enganosa! Eles querem nos vender e, muitas vezes nos coagem a comprar, algo que jamais se compra, se empresta e se vende. Ou você “é” ou não “é”, jamais se consegue “ser” adquirindo, comprando, consumindo. Pelo contrário, consegue-se sim “sumir com”: consigo, com os outros, com a natureza…
Talvez não seja por nenhuma destas razões que eu caminho; talvez seja só por algumas delas ou até por todas. Talvez seja por algumas que não relatei, pois estão não meu inconsciente.
O fato é que eu caminho porque tenho coração e é ele quem dá a direção. Sempre que busco o silêncio e me volto pra mim, sinto um sussurrar em meus ouvidos dando a direção. E eu vou.
Parece que todos vivemos nesta sociedade dita moderna onde não se consegue mais ouvir os sons da natureza, como o vento mexendo as árvores, a chuva que cai balançando o capim, o lago que vem as margens para descansar, o pássaro que dá bom dia logo cedinho, o rio que caminha feliz aguardando o abraço unificador com o mar.
Como eu posso, mais do que ver, sentir tudo isso se não for caminhando? Por uma questão de vida, “caminhar é preciso, mas viver não é preciso”, metaforiza Fernando Pessoa. É isso, viver não é preciso, pois cada um tem o seu rumo, desde que siga a bússola do seu coração. A precisão é sentimento, onde a gente se sente bem e só isso já basta; a precisão não é pensamento. Afinal de contas, na maioria das vezes a gente tem “certeza” que está precisamente correto, mas o sentimento é de ânsia, de tristeza, de angústia.
Quando eu caminho, e pode ser uma caminhada rápida ou mais longa, eu me entrego. E me entregando para o presente, me sinto inteiro a cada instante. Sinto-me “ligado” com tudo ao meu redor e parece que só aquilo tem sentido naquele momento. Não há passado, não há futuro, há o aqui e o agora.
São incríveis as sensações e os sentimentos que surgem a partir de coisas tão simples e baratas, como caminhar, que às vezes sinto vontade de gritar ao mundo para que todos caminhem; que pelo menos uma vez na vida façam uma caminhada de várias semanas, que ponham uma mochila nas costas e se deixem viver plenamente. Fazendo isso, creio que a pessoa nunca mais pára de andar ou não faz a segunda experiência. Aqui não existe meio termo. Porque a experiência é muito forte, tanto do ponto de vista físico (denso), quanto do espiritual (sutil), de auto-conhecimento.
Como peregrino, caminhante, buscador, sigo devagar e sempre na estrada; sinto o vento que acaricia meu corpo, o cheiro de mato as vezes úmido, o som do rio que me fez companhia, o pássaro que canta, a borboleta que voa, a flor que desabrocha. Todo este espetáculo é mais um deleite pra mim quando estou por aí. É um arrepiar-se atrás de outro. Assim vou vivendo intensamente cada dia, um após o outro. E dias para o caminhante é feito de passos, um atrás do outro, um depois do outro.
Quem sabe a gente se encontra qualquer dia? Podemos, por algum tempo, seguirmos juntos, trilharmos caminhos paralelos. Podemos ouvir nossos passos, curtir a natureza, falar da gente. Assim pode me dizer, pra você, “o que é viver” e “por que você caminha”?
A gente se encontra no caminho.
Ao Manoel e seus companheiros caminhantes, algumas frases de inspiração, que têm tudo a ver com a experiência de vcs…, do livro do Carlos Nejar, que certamente conhecem (“O Livro do Peregrino”):
“O peregrino é alguém que atravessa a si mesmo, que dá nome e entrega-se a tudo que toca, confundindo-se com o personagem errante e defendendo, de uma ponta a outra do livro da vida, que “o mágico é verdadeiro”
“O andar cria a alma”
“O que é vivido tão completamente, não acabará de viver”
“O melhor no homem é que percorra a si próprio e transmude-se”
“Tudo roda nas almas. Junto aos pássaros: tudo voa!”
Abraços e boa caminhada!
Marília
Maneca, meu caro
Já é terça-feira, dia 3 de julho, e pelo jeito que andam (ou não andam) as coisas nos aeroportos brasileiros, espero que você não esteja numa conexão esperando algum vôo. Mas, se estiver, faz o que o Dalai Lama sugeriu: aproveita para ler, meditar, conversar, pensar, conhecer pessoas… Afinal o que importa mesmo não é o destino, mas a jornada. Boas caminhadas! Abraço no coração e até mais ver!
Meu caro amigo, desde os tempos de criança em que brincávamos de carrinho no porão de casa, lembranças de uma infância sadia que jamais esquecerei. Agora, depois de tanto tempo, tenho notícias suas com ações que não me surpreende, por conhecer seu caráter e espírito humano, mas de certa forma percebo que trilhas os caminhos para tornar as pessoas mais felizes e isso certamente reflete o seu espírito.
Saudade meu amigo Maneca. Oh tempo bom, lembras? O Ita, Ney, Téco e os meus irmãos Luiz e Leonardo na inocência de criança bricavamos de melhor o mundo e hoje podemos construir um mundo melhor, de verdade, aliás, vc está fazendo isso com muita competência.
Tenho orgulho de ser teu amigo. As suas caminhadas nos leva à reflexão, será que temos que aceitar esse mundo capitalista do “vale tudo”?
Um forte abraço de seu amigo Celso Gomes (Téko)
69-9984-6662
Em Porto Velho – Rondônia
NINGUÉM É FELIZ SOZINHO…
SE TUA FELICIDADE ESTÁ NOS OLHOS DO OUTRO
ENTÃO NÃO PODES SER FELIZ
SE ELA REPOUSA NA TERRA PROMETIDA
DISTANTE
PERDIDA
TAMBÉM NÃO PODES SER FELIZ
MAS SE A FELICIDADE
ESTÁ
ONDE
TU A COLOCAS
ENTÃO PODES COLOCA-LA
EM TODA PARTE
A PARTIR DE TI MESMO……
BEIJO NO CORAÇÃO
MARIANE
Manoel, caminhei contigo em Julio, e se o tradutor de espanhol a português me o permite, você deve saber que encontrei um sentido diferente a meu caminho desde nosso pequeno percurso, e lhes dou as graças. Agora em casa, repasse mentalmente as horas, os dias, as semanas que caminhei, e penso que desde aquele momento, todos os encontros com as pessoas nos diferentes lugares mudavam o sentido de cada passo de cada jornada que transcorria.
A esta experiência começo a chamá-la “a marcha dos anjos sem asas”.
Já você sabe como comecei a caminhar. A atitude de uma turista ou os desafios como esportista não são suficientes para o Caminho. Também não o são, o olhar de qualquer filósofo, qualquer sociólogo, ou inclusive um teólogo, sobre o Caminho. Caminhar para esquecer também não é um motivo. E é que aprendi naqueles primeiros dias do Caminho que os anjos caminham,… sem suas asas,…. e sem idade, e sem sexo, e sem classe social, e sem profissão, e sem procedência, e sem preconceitos. Tudo isso esta presente,…. mas o Caminho nos há angeles iguais, ante seu comprimento, ante sua amplitude. No Caminho só importa o aqui e o agora como você escreve em seu artigo.
Agora a mochila do caminho pesa-me mais que quando andava,… cheia de lugares, de pessoas, de detalhes, de sensações, de curiosidades, de sorrisos e de risos, de algumas lágrimas,….Entre tanto, tantíssimo, considero que uns anjos só se mostram mas há outros que te ensinam no caminho a escutar os silêncios, a observar cada olhar, e a cantar num rio, a dançar num albergue, …. a caminhar, a navegar,…
Lendo seu artigo, é certo que numas semanas nos encontremos com muita rotina, mas não me angústia, o Caminho agora está muito perto, perto demais….. Bem você diz que não há meio termo ao caminhar, volto a ter ânsia de caminhar,… de navegar….
Um forte abraço como sempre. Muito obrigado. Aurora.
Em Valencia – España
Manoel, quero lhe agradecer por um belíssimo encontro: o do seu livro “O Buscador”.
Ainda não consigo entender nem explicar direito, a forte emoção que senti quando hoje a tarde, em um café de um Shopping em São Bento do Sul, vi seu livro aberto sobre um dos balcões.
Foi como se um imã estivesse me atraindo para ele. Meus olhos percorreram rápidamente as páginas e logo a seguir fui verificar na capa, o título.
Aí mesmo é que meu coração disparou! Fiquei impressionada com as palavras que meus olhos liam, exatos dois dias após eu ter lido uma mensagem, com o título: o anjo da busca.
Mensagem esta que eu li em um pequeno livro de nome “Anjos II”, da autora Sonia Café, no dia de minha viagem para S.Bento do Sul.
Uma viagem como a que você fez para a Bolívia e o Peru é um grande sonho que venho alimentando faz um bom tempo! Um sonho que quero e vou realizar, mas o que mais me impressionou foi a “sincronicidade”.
Muitos buscadores como nós se encontram por esses caminhos de diversas formas e eu, nesta tarde tive a grande felicidade de encontrá-lo por meio de seu livro que agora estou saboreando com maior calma, pois ele me foi oferecido por empréstimo, durante o período em que eu permanecer aqui nesta cidade.
Assim, mais uma vez agradeço e qualquer dia desses tenho fé que poderei lhe retribuir pessoalmente por esta oportunidade de viver intensamente o presente a cada olhar, cada palavra, cada sinal que esta vida nos dá.
Tenho caminhado bastante. Mais do que ontem e espero menos do que amanhã. Tenho dançado bastante. Tenho sentido uma felicidade imensa de admirar o que vejo ao meu redor e dentro de mim mesma.
Tenho dado e prestado muito mais atenção para tudo e todos os seres que estão a meu redor.
Assim continuo e continuarei caminhando. Continuo e continuarei dançando.
Um forte abraço. Cristina
Meu caro Manoel. Quase um ano se passou do seu escrito e só agora li; como se fosse de ontem. Tenho alguns anos: falo dos que estão por vir pois, os 75 já foram. Valeram os dias de caminho. No “do Sol” , “da Fé” e de Santiago. Não pude faze-lo inteiro,problemas de tempo e dinheiro.Há quem diga que são gêmeos. Foram muitas descobertas, ensinamentos, sentidos e sentimentos que ficaram claros. Não dá mesmo vontade de parar.Lá na pegadas está a vida por inteiro, ainda que uns condicionamentos que inventamos nos façam ter quepassar algum tempo entre matérias e materiais. Grande abraço e a esperança de ve-lo. Scano