Andarilho por quatro dias

mendigoEm julho de 2002 fiz uma experiência muito diferente das que eu estava habituado a fazer: trilhei os 200 quilômetros da BR trajeto entre Criciúma e Florianópolis, trecho em que percorri em três noites e quatro dias. Durante este tempo, literalmente, andei no tapete escuro da principal estrada que liga a nossa região Sul ao restante do Brasil e pude sentir na pele e no estômago, o que é ser um caminhante da BR.

Barulho ensurdecedor, tensão com o movimento intenso, insegurança. Também contei com solidariedade, amizade, partilha. É outro lado do caminho. Na verdade, constatei mais uma vez: tudo tem o outro lado; ou até outros lados. Aprendi muitas coisas com os andarilhos, com a estrada e com a minha caminhada. Andar sempre, faz bem para a alma e para o espírito. Sempre. Este é o exemplo que as antigas civilizações nos deixam e que na correria do cotidiano esquecemos em alguma esquina do passado.

Na estrada, soube que existe uma diferença entre mendigo, trecheiro e andarilho. O mendigo é uma característica mais urbana. O trecheiro é aquele que vive somente um determinado trecho e dificilmente o deixa. Já o andarilho não tem parada nem de região, nem de estado e muito menos de país.

Durante os quatro dias, gastei somente R$ 6,20. e olha que foi no município de Palhoça, na Grande Florianópolis. De Criciúma até lá, simplesmente ia pedindo e ganhando café da manhã, lanche, almoço e janta. Em algum momento até refleti sobre isso, mas logo me veio: “Quem não tem coragem de pedir, também não gosta de doar”. É, aprendi que pra pedir é necessária muita coragem e para receber muita humildade. Olhar pra frente, sempre andando na contramão (da vida também?) para não ser atropelado (e não ser igual a todo mundo), e não pensar em nada, nem mesmo onde vai dormir, é uma experiência inédita. No ano passado, fiz 800 quilômetros no Caminho de Santiago, mas foi diferente. Nem pior, nem melhor, diferente. Insegurança no que vai acontecer no próximo minuto. Esta é uma situação vivida por todos que vivem na estrada (e na cidade não?). Na grande maioria das vezes, estes nossos irmãos encontram um prato de comida, um cobertor ou uma roupa usada, uma ponte, uma garagem. Se não encontram, ainda podem dormir na beira da estrada, “mocozado” dentro do mato como eles dizem. O início da aventura é quase igual para todos. A morte da esposa atropelada, o assassinato da namorada, a briga com o padrasto, pai ou mãe e a expulsão de casa. Até mesmo o desemprego prolongado. Todos são motivos para que eles, pessoas sensíveis e extremamente carentes, optarem em se aventurar na estrada. E uma vez ali, é muito difícil deixar. Encontrei crianças de 14 anos, jovens de 18 e 20 anos, senhores de 30 a 40, e até velhos com mais de 60 anos. “Eu me governo”, dizia Nazareno, trecheiro com 64 anos, com quem dividi a garagem da igreja, em Palhoça. Que fez uma pergunta que ecoa até agora dentro de mim: “Eu vou levantar daqui a pouco e vou pra onde eu quiser. E tu, tu te governa?”

4 Comentários a “Andarilho por quatro dias”


  • Isaac Otávio Ferreira

    Caro Manoel,
    Gostei de ler as suas aventuras, o parabenizo pela coragem e o interesse em conhecer esse lado da vida que só os fortes se arriscam.

    Segue abaixo um belo site de um abraço grátis, uma verdadeira lição de fraternidade.
    http://www.youtube.com/watch?v=vr3x_RRJdd4

  • Ricardo Oldoni

    caramba, sem comentarios as suas aventuras!

    a andarilho por 4 dias foi espetacular!!!! ja to programando a minha tambem..
    ei nao ta afim de faze alguma aventura um dia juntos?

    tem meu msn ai
    abraçO!

  • Albertino (BETO)

    Rapaz, como admiro vcs, mais não é inveja não viu, é admiração mesmo, acho que me falta coragem para fazer algo parecido… é preciso (acho) antes de tudo ser maduro o suficiente para fazer esse trilhão. Quando digo maduro eu quero dizer coragem mesmo. Parabenz gostei de vosso conto.Eles nos ajudam a refletir e a transpor muitas barreiras do dia a dia.

    Abraço.

    Albertino (BETO)

  • Oi Maneca…
    Conheci vc anos atrás, professor da UNESC, e reencontrei vc ontem, qdo uma amiga me apresentou seu livro O buscador. Fiquei impressionada com a forma clara e deliciosa com que vc narra sua jornada e mais ainda ocm a forma como aborda temas profundos de nossas vivências, como qdo discute a nossa capacidade de abertura para o novo. Fiquei pensando na nossa condição de “sozinhos” e pensando em o qto real é sua afirmação, afinal temos amigos, parentes, família, filhos, mas somos sozinhos em nossa condição humana. Assim nascemos, assim crescemos e tomamos decisões, assim vivemos e assim, um dia, partiremos…
    Me impressionava a sua aula pelas propostas novas, pelas idéias, pela compreensão de coisas que pareciam tão claras e no entando, tão imperceptíveis (e será que justamente por isso por vezes não as vemos?) até que encontro no final do seu livro ontem uma foto sua como mendigo, no natal de 2001. Minha cabeça flutuou, girou, se decompôs… parecia que seu gesto me tirava todo chão, tudo aquilo que eu considerava sólido. Passei o restante do meu dia “fora da casinha”… rapaz.. e fui p bem longe dela… rsrsrss
    Obrigada por este momento de reflexão, por esse reencontro, pelo “arrepio” que faz perceber VIDA…
    Um maravilhoso 2008 a vc

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